ASPECTOS DE VIDA REPRODUTIVA DE FÊMEAS CANINAS
1. Fisiologia e Manejo da Reprodução :
A cadela entra em puberdade com idade entre cinco meses e dois anos. As raças Pequenas têm o primeiro cio mais precocemente que as raças grandes. O início das atividades de reprodução não deve ser postergado para a fase de meia-idade. A saúde e desempenho reprodutivo da cadela serão melhor mantidos se a vida reprodutiva se iniciar no segundo ciclo estral. Não há vantagens em promover coberturas em ciclos alternados ou em usar outros programas semelhantes, se a cadela for normal.
As fêmeas destinadas à reprodução devem ser mantidas em bom estado corporal e de saúde, livres de parasitas internos, externos e vacinadas, particularmente no período que antecede imediatamente a época de cobertura. Qualquer grau de emaciação ou obesidade devem ser corrigidos. Distocias e problemas de lactação são vistos mais comumente em cadelas com peso acima do normal. Algumas linhagens de cães têm tendência à repetição desses problemas e isso parece estar relacionado à tendência familiar ao desenvolvimento de obesidade durante a gestação.
O exame clínico minucioso, antes da cobertura por um veterinário, deve ser conduzido com dois objetivos, um é detectar qualquer sinal de doença ou debilidade orgânica que desabone a gestação, o outro estará relacionado à identificação de aspectos físicos que predisponham a distúrbios do parto e da lactação. O exame da vulva, vagina e pelve podem revelar alterações que potencialmente dificultem o parto. Papila mamária invertida ou hiperplásica pode impedir a amamentação, especialmente para filhotes pequenos ou fracos. Cadelas com mamas pendulosas estarão sujeitas a galactostase e mastite durante a lactação, principalmente quando vivem em locais úmidos.
Embora uma única cobertura, realizada em momento propício, seja suficiente para estabelecer gestação em cadelas normais, sabe-se que coberturas múltiplas aumentam a taxa de concepção. Freqüentemente as coberturas são induzidas nos dias 9, 11, e 13 após o início do proestro. Embora haja muita variação individual, o melhor método parece ser o de cobertura a intervalos de quatro dias durante o período receptivo. Espermatozóides normais ainda são encontrados quatro a seis dias após uma cobertura.
A gestação de cadelas tem duração aproximada de 63 dias (variação de 5 a 6 dias). A palpação e ultrasonografia, são os meios mais efetivos para diagnóstico da gestação. Após seis semanas de gestação, a radiografia também pode ser utilizada.
2. Alimentação :
O Consumo de alimentos varia em função do estado fisiológico da fêmea. Durante o estro ocorre redução no consumo de alimentos; na cadela a redução é de cerca de 17%. Se o animal é levado à cobertura, a diminuição no consumo de alimentos não é suficiente para prever a fadiga, desconforto, vômito e diarréia que podem surgir em decorrência da atividade estrênua de coito. Neste caso o animal deve ser colocado em jejum horas antes e após o coito e a ingestão de água deve ser moderada. Esta mesma deve ser adotada para o macho.
Após o primeiro terço da gestação (aprox. 20 dias), ocorre o aumento gradual no consumo de alimento; até um total de 13% na cadela. Por volta da terceira semana de gestação, muitas cadelas passam por um período de diminuição do apetite, que pode durar de 3 a 10 dias. Nesta fase pode haver redução transitória do peso corporal, ou simplesmente declínio temporário na taxa de ganho de peso. No período entre a quarta e sétima semana de gestação a cadela pode aumentar em 40% o consumo de alimento e manter um pequeno e constante ganho de peso.
Nos últimos 20 dias de gestação ocorre importante crescimento dos fetos, desenvolvimento dos tecidos placentários, acúmulo de líquidos e desenvolvimento de glândulas mamárias que contribuem para o ganho de peso. Neste período há falta de espaço abdominal para uma confortável expansão e função do trato digestivo. Para compensar a falta de espaço as gestantes comem pequenas quantidades várias vezes ao dia. As fêmeas que trazem muitos fetos têm desconforto mais acentuado e podem apresentar decréscimo no consumo de alimentos, além de relutância para o exercício e, potencialmente, dificuldade para o parto e lactação subseqüente.
As gestantes com peso abaixo do normal durante os dois últimos terços da gestação (40 a 60 dias) podem ter dificuldade para manter a condição corporal ideal para produção de leite após o parto. Por outro lado, a obesidade reduz o desempenho reprodutivo e compromete a lactação. Portanto, o peso deve ser cuidadosamente monitorizado durante esta fase.
Com a proximidade do parto a fêmea pode perder inteiramente o apetite. Esse evento provavelmente se deve à alteração na relação estrógeno-progesterona que ocorre nos últimos dias de gestação. Em muitas cadelas a recusa de alimento na nona semana de gestação, é um bom indicativo que o parto ocorrerá nas próximas 24 a 48 horas. Usualmente o apetite retorna ao normal dentro de 24 horas após o parto, com consumo maior do que o observado durante a gestação. No pico da lactação (20 a 30 dias após o parto), a lactante pode ingerir cerca de duas a quatro vezes a quantidade usual para a sua manutenção. Cadelas muito atenciosas e com ninhadas numerosas raramente abandonam seus filhotes para cuidar de sua própria alimentação. Neste caso, o animal deve ser encorajado a comer e beber através de insistentes ofertas de alimentos altamente palatáveis.
Desde a gestação e durante a lactação a fêmea apresenta aumento no consumo de água e portanto há necessidade de suprimento contínuo de água fresca e limpa. Nos casos em que o consumo de água e mesmo de alimento, devam ser estimulados, uma boa medida é a constante renovação do alimento e água que devem ser servidos em vasilhas muito limpas.
Se a fêmea mantém boa condição corporal durante a lactação, a desmama pode ser favorecida pela restrição na quantidade de alimento oferecido para a lactante (a quantidade de manutenção acrescida de apenas 50%). Convem diminuir a demanda de leite; nesta fase pode ser iniciada a alimentação sólida para os filhotes. Se a fêmea mantiver a produção de leite após a remoção dos filhotes poderá haver congestão de mamas e desconforto. Este problema pode ser resolvido pela restrição alimentar. Se a fêmea estiver em boa condição corporal, pode ser feita diminuição drástica do alimento oferecido no primeiro dia (1/4 da quantidade de manutenção), seguindo com aumento gradativo (cerca de ¼ da quantidade de manutenção, por dia) nos três dias seguintes. Não deve ser feita restrição de água.
Durante o período de repouso reprodutivo, as fêmeas devem receber os cuidados para manutenção de animais adultos. É necessário oferecer pelo menos as condições mínimas indispensáveis de conforto ambiental, nutrição adequada e cuidados médicos quando for o caso. Neste período o alimento oferecido deve atender os requerimentos nutricionais para a manutenção de animais adultos. As necessidades nutricionais podem ser melhor atendidas se forem empregadas rações de boa procedência, o que torna dispensável qualquer suplementação.
Uma vez gestante, e particularmente durante o último terço da gestação e todo o período de lactação, a fêmea deve receber dieta balanceada para atender os requerimentos mínimos apropriados para esses estágios.
Com alguma freqüência se faz necessária restrição de quantidade de alimento durante a gestação para evitar excesso de ganho de peso. Durante a lactação o alimento deve ser fornecido a vontade.
Se houver histórico de eclâmpsia, as dietas a base de carne sem suplementação e outras com pouco teor de cálcio são contra-indicadas. Neste caso, mesmo com dieta balanceada para reprodução, durante a lactação a cadela deve receber suplementação de 500 mg de carbonato de cálcio/5 Kg de peso corporal/dia. Essa complementação é iniciada somente após o parto e é contra-indicada durante a gestação. Paralelamente pode ser necessária adoção de medidas para diminuir a demanda de leite materno, tais como o emprego de leite substituto para auxiliar na dieta dos filhotes e desmame precoce.
Quando houver disponibilidade de ração comercial especialmente desenvolvida para animais em reprodução, este alimento deve ser recomendado. Não havendo este tipo de alimento, uma alternativa é o emprego de ração de boa qualidade, desenvolvida para filhotes (ração para crescimento), uma vez que os requerimentos mínimos para este tipo de alimento não diferem daqueles necessários para reprodução.
Alterações fisiológicas observadas na fêmea gestante:
• Aparelho digestivo : Ocorre incremento no apetite, devido ao aumento no metabolismo geral.
• Aparelho circulatório : Devido ao desenvolvimento do útero, pode ocorrer dificuldade no retorno venoso por compressão, predispondo a formação de edemas (acúmulo excessivo de líquido nos espaços dos tecidos, devido á maior transudação dos capilares) e ascite (acúmulo de líquido seroso na cavidade peritonial) moderada fisiológica.
• Aparelho respiratório : Normalmente o que se observa é a respiração dispnéica (respiração difícil ou laboriosa).
Particularidades do parto na Cadela :
As cadelas podem apresentar, nos dois a três dias que antecedem o parto, inapetência (falta de apetite), inquietação e episódios de vômitos. Os fetos podem nascer envolvidos pelas membranas fetais. Geralmente o primeiro feto é eliminado do corno uterino com maior número de fetos, seguindo-se alternância de contrações. A duração média da fase de expulsão é de 6 horas e o intervalo entre nascimento pode ser de até 2 horas (entre 1º e 2º). Quando o feto nasce envolvido pela placenta, a fêmea a rompe, masca o cordão umbilical e lambe o feto.
A placenta geralmente acompanha o feto, porém quando isso não ocorrer é eliminada 5 a 10 minutos após o nascimento. Nesta espécie a placentofagia (ato de comer a placenta, e é considerada fisiológica - constituindo vestígio de defesa contra possíveis predadores, com a supressão de sinais de parto recente) é comum.
Drº Eraldo Bessone Jr.
Médico Veterinário
CRMV-PE 2603